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| protesto |
A marcha já aconteceu em mais de 70 cidades e finalmente chegou ao Brasil depois da redatora curtibana,Madô Lopez, de 28 anos, criar uma página para o evento no Facebook. "Acho que faz todo o sentido ter uma marcha dessa em um país machista como o Brasil", diz. Não faz muito tempo, o Brasil assistiu - em parte perplexo, em parte aplaudindo - uma estudante loira ser vaiada e quase linchada em uma universidade porque usava um vestido justo e curto. Todos lembram.
A marcha é um protesto contra a mentalidade, tão antiga quanto disseminada, de que a mulher é a verdadeira causadora da violência sexual da qual é vítima. Está presente na cabeça dos agressores: "ela estava de saia curta", justificativa comum nos depoimentos de estupradores; dos delegados "como você estava vestida quando foi abordada pelo estuprador? de saia? então pode voltar pra casa" (e é por isso que foram criadas as delegacias da mulher); e das próprias mulheres - quem nunca ouviu um comentário jocoso sobre o decote escandaloso da vizinha?
Se pararmos para pensar nesse debate com atenção, surge rapidamente a dúvida: será que as vítimas de violência sexual também se sentem culpadas pelo estupro?
"Sim, todas", diz a psicóloga Ana Paula Mullet Lima, da Universidade Federal de São Paulo, que trabalha no atendimento de mulheres estupradas. "Sempre se perguntam por que com elas, o que fizeram para merecer aquilo. Nosso trabalho é fazê-las entender que foram vítimas de uma doença social, que vê a mulher como objeto passível de uma violência desse tamanho. É um processo longo e doído. A violência sexual desintegra a vítima, que foi literalmente invadida. É muito humilhante. Essas situações não envolvem só a penetração. Tem todo um terror. Muitas vezes os agressores estão armados e dizem que vão matá-las durante o ato e até chegam a urinar em cima delas. Elas sentem vergonha, querem esquecer aquilo e não procuram tratamento. Só vão procurar ajuda quando estão completamente destroçadas: deprimidas, paranóicas".
A recuperação dessas vítimas, segundo Ana Paula, fica ainda mais difícil quando os parentes e amigos também duvidam da responsabilidade delas sobre o estupro. "Quando elas engravidam do agressor, é comum que os namorados e maridos as deixem. Questionam o estupro, dizem que o filho é de um amante. Acontece em todas as classes sociais". O caminho para mudar essa mentalidade no Brasil é longo. Alguns passos foram dados neste sábado, na avenida Paulista.




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